“O INFERNO DOS OUTROS”,
de David Grossman.
“Eu fazia para ela esquetes
clássicos israelenses, e ela ficava fumando, assim, com o sorriso dela dirigido
em parte para mim e em parte para o vazio, e eu nem sabia o quanto ela poderia
entender do meu hebraico, dos sotaques e das gírias, com certeza ela não
entendia a maior parte, mas toda tarde, durante três ou quatro anos, talvez
cinco, ela ficava sentada me olhando, sorrindo, ninguém além de mim via minha
mãe sorrir assim, eu garanto até que de repente ela ficava de saco cheio, no
meio de uma palavra, não importa em que parte eu estivesse, na pontinha da
pontinha da punchline, eu via isso chegando, me tornei um especialista. Os
olhos começavam a escapar para dentro dela, os lábios começavam a tremer, a boca
entortava para um lado, e eu acelerava para a punchline, tentando chegar
antes dela, eu começava uma corrida contra o tempo, vendo o rosto dela se
fechando bem diante dos meus olhos, e pronto, acabou. Era o fim. Ainda tenho
cachecóis na cabeça, a vassoura na mão, fico me sentindo um idiota, um palhaço,
e ela já arranca a toalha da cabeça, apaga o cigarro: ‘O que vai ser de você?’,
ela grita. ‘Vai fazer o dever de casa, vai brincar com seus amigos...”’
(“O inferno dos outros”,
de David Grossman. Companhia das Letras, 1ª ed., 2016, p. 160.)