quarta-feira, 15 de julho de 2020


 “O INFERNO DOS OUTROS”, de David Grossman.

“Eu fazia para ela esquetes clássicos israelenses, e ela ficava fumando, assim, com o sorriso dela dirigido em parte para mim e em parte para o vazio, e eu nem sabia o quanto ela poderia entender do meu hebraico, dos sotaques e das gírias, com certeza ela não entendia a maior parte, mas toda tarde, durante três ou quatro anos, talvez cinco, ela ficava sentada me olhando, sorrindo, ninguém além de mim via minha mãe sorrir assim, eu garanto até que de repente ela ficava de saco cheio, no meio de uma palavra, não importa em que parte eu estivesse, na pontinha da pontinha da punchline, eu via isso chegando, me tornei um especialista. Os olhos começavam a escapar para dentro dela, os lábios começavam a tremer, a boca entortava para um lado, e eu acelerava para a punchline, tentando chegar antes dela, eu começava uma corrida contra o tempo, vendo o rosto dela se fechando bem diante dos meus olhos, e pronto, acabou. Era o fim. Ainda tenho cachecóis na cabeça, a vassoura na mão, fico me sentindo um idiota, um palhaço, e ela já arranca a toalha da cabeça, apaga o cigarro: ‘O que vai ser de você?’, ela grita. ‘Vai fazer o dever de casa, vai brincar com seus amigos...”’
(“O inferno dos outros”, de David Grossman. Companhia das Letras, 1ª ed., 2016, p. 160.)

domingo, 12 de julho de 2020


“A RESISTÊNCIA”, de Julián Fuks.

“Não tento mais chegar à porta, estou parado a alguns metros da entrada, e no rádio de um camarada se repete a notícia que nos convoca: hoje anunciaram mais um neto recuperado. É apenas o neto 114, quando centenas de netos ainda faltam, quatro centenas de crianças usurpadas após o parto, quatro centenas de destinos ignorados. É apenas o neto 114, vocifera o locutor emocionado, mas este caso tem um valor simbólico, este é o neto de Estela de Carlotto, líder histórica das Avós. Foram trina anos, foram mais de trinta anos de busca, de espera, de luta e tenacidade, mais de trina anos que culminam nesta tarde.” (“A Resistência”, de Julián Fuks. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 129.)


“CRIME E CASTIGO”, de Fiódor Dostoiévski

“Veja só que força alcança, em certas moças, o fervor pela propaganda! Eu, é claro, pus a culpa de tudo no meu destino, me fingi de sedento e sôfrego de luz e, por fim, pus em movimento o mais colossal e inexorável recurso que existe para a conquista do coração feminino, um recurso que nunca decepciona ninguém e que produz seu efeito em todas elas, sem exceção. Esse recurso bem conhecido é a lisonja. Não há no mundo nada mais difícil do que a sinceridade e nada mais fácil do que a lisonja. Na sinceridade, se só a centésima parte da melodia for falsa, logo soará uma dissonância e, em seguida, um escândalo. Na lisonja, porém, tudo é falso, até a última nota, e por isso ela é agradável e não a ouvimos sem prazer; um prazer grosseiro, talvez, mas mesmo assim é um prazer. E por mais grosseira que seja a lisonja, pelo menos metade dela não pode deixar de parecer verdadeira. Isso vale para todas as camadas e níveis da sociedade. Até uma vestal pode ser seduzida com lisonjas. E quanto a pessoas comuns, nem é preciso falar. (“CRIME E CASTIGO”, de Fiódor Dostoiévski. Tradução do russo de Rubens Figueiredo. São Paulo: Todavia, 2019, p. 522)