domingo, 12 de julho de 2020


“CRIME E CASTIGO”, de Fiódor Dostoiévski

“Veja só que força alcança, em certas moças, o fervor pela propaganda! Eu, é claro, pus a culpa de tudo no meu destino, me fingi de sedento e sôfrego de luz e, por fim, pus em movimento o mais colossal e inexorável recurso que existe para a conquista do coração feminino, um recurso que nunca decepciona ninguém e que produz seu efeito em todas elas, sem exceção. Esse recurso bem conhecido é a lisonja. Não há no mundo nada mais difícil do que a sinceridade e nada mais fácil do que a lisonja. Na sinceridade, se só a centésima parte da melodia for falsa, logo soará uma dissonância e, em seguida, um escândalo. Na lisonja, porém, tudo é falso, até a última nota, e por isso ela é agradável e não a ouvimos sem prazer; um prazer grosseiro, talvez, mas mesmo assim é um prazer. E por mais grosseira que seja a lisonja, pelo menos metade dela não pode deixar de parecer verdadeira. Isso vale para todas as camadas e níveis da sociedade. Até uma vestal pode ser seduzida com lisonjas. E quanto a pessoas comuns, nem é preciso falar. (“CRIME E CASTIGO”, de Fiódor Dostoiévski. Tradução do russo de Rubens Figueiredo. São Paulo: Todavia, 2019, p. 522)

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