"Esperando Bojangles", de Olivier Bourdeaut
"No momento de guardar Mamãe em sua gaveta, pusemos para tocar o disco de Bojangles e, aí, foi muito emocionante. Pois aquela música era como Mamãe, triste e alegre ao mesmo tempo, e Bojangles ecoava nos bosques, enchia todo o cemitério, com suas notas de piano que volteavam nos ares fazendo as palavras da letra dançarem na atmosfera. Era longa aquela canção, tão longa que tive tempo de ver o fantasma de Mamãe dançar ao longe nos bosques, batendo palmas como antigamente. As pessoas assim nunca morrem totalmente, pensei sorrindo. Antes de ir embora, Papai colocou uma placa de mármore branco sobre a qual mandara gravar: "A todas aquelas que você foi, amor e felicidade para a eternidade". E eu nada teria acrescentado, pois essa vera a verdade.
Quando acordei, no dia seguinte, Papai não estava mais na cadeira, no cinzeiro ainda havia a brasa de seu fumo perfumado, e no ar a fumaça de seu cachimbo, numa nuvem, se dissipando. No terraço, encontrei o Lixo com os olhos no vazio e o charuto enfim aceso. Explicou-me que Papai fora encontrar Mamãe, que se metera nos bosques, logo antes que eu me levantasse, para que eu não o visse. O senador me disse que ele não voltaria, que nunca mais voltaria, mas isso eu já sabia, a cadeira vazia tinha me dito. Compreendi melhor porque ele estava feliz e concentrado, pois estava preparando a partida para ir se juntar à Mamãe, para uma longa viagem. Eu não podia propriamente zangar-me com ele, aquela loucura também lhe pertencia, só podia existir se fossem dois para carregá-la. E eu, eu teria de aprender a viver sem eles. Ia poder responder a uma pergunta que me fazia o tempo todo. Como fazem as outras crianças para viver sem meus pais?" (Editora Autêntica, tradução de Rosa Freire D'Aguiar)