"A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade. Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como Dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem anos de solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro o fato de que, sem a insatisfação e a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu da insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável. Para esse espírito que se rebela com a vida do modo como ela é e procura concretizar o sonho, o impossível, com a insensatez de um Alonso Quijano, cuja leitura, recordemos, nasceu da leitura de romances de cavalaria, a literatura serviu de combustível formidável. (...)
Como as de Cervantes e Flaubert, as invenções de todos os grandes criadores literários, ao mesmo tempo que nos arrancam de nossa prisão realista, conduzem e guiam pelos mundos da fantasia, abrem-nos os olhos sobre aspectos desconhecidos e secretos da nossa condição, e no dão os instrumentos para explorar e entender mais os abismos do que é humano."