terça-feira, 10 de janeiro de 2012

É possível pensar o mundo moderno sem o romance? - Mario Vargas Llosa

"A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade. Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como Dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem anos de solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro o fato de que, sem a insatisfação e a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu da insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável. Para esse espírito que se rebela com a vida do modo como ela é e procura concretizar o sonho, o impossível, com a insensatez de um Alonso Quijano, cuja leitura, recordemos, nasceu da leitura de romances de cavalaria, a literatura serviu de combustível formidável. (...)
Como as de Cervantes e Flaubert, as invenções de todos os grandes criadores literários, ao mesmo tempo que nos arrancam de nossa prisão realista, conduzem e guiam pelos mundos da fantasia, abrem-nos os olhos sobre aspectos desconhecidos e secretos da nossa condição, e no dão os instrumentos para explorar e entender mais os abismos do que é humano."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Púcaro Búlgaro - Campos de Carvalho

 
"Mesmo que ficasse um dia definitivamente demonstrada a inexistência da Bulgária, ou das Bulgárias, ainda assim continuariam a existir búlgaros - do mesmo modo como existem lunáticos que nunca foram e jamais irão à Lua."
"Descobri que não é a Torre de Pisa que está se inclinando,e sim toda a cidade de Pisa, com os seus prédios e monumentos, e até os seus habitantes. A torre é a única que, por um fenômeno inexplicável, se mantém a prumo."
"O que antes era a consciência, o anjo da guarda de cada um, hoje se chama O TRANSÍSTOR: coisas da era nuclear ou da eletrônica. Você deixar que os outros pensem por você e decidam sobre o que você deve fazer; e como os outros, por sua vez, estão deixando que alguém pense ou decida por eles, acaba ninguém pensando nem decidindo coisa nenhuma, o que é justamente o que o governo quer e faz o possível para que aconteça. Daí a Fábrica Nacional de Transístores, e daí a voz do speaker que é a voz do governo anunciando sabonetes e uma era de franca prosperidade - para ele naturalmente."
"SÓ HÁ UMA VERDADE ABSOLUTA: TODO RACISTA É UM FILHO DA PUTA."

UM BEIJO DADO MAIS TARDE - Maria Gabriela Llansol

"A história dos pomares e dos jardins é das mais misteriosas. Exprimem com uma tal violência contida os sentimentos mais íntimos dos homens, que eu nunca quis ter um jardim, nem um pomar. Quando já não era preciso queimá-las como bruxas, as mulheres submissas, em geral tendo a Dona da Casa como mestre da submissão, passaram a cultivar, numa subalternidade da casa, um recanto de beleza, com árvores de fruta, com arbustos baixos e flores, com buxos a circunscrever uns e outros, como penhor de sua honestidade. O abandono a que votei o jardim e o pomar desagradou às minhas vizinhas. Nunca tive uma dália, uma rosa ou um crisântemo para lhes oferecer.(...) Mas o que mais espécie lhes fazia era o meu interesse por um triângulo selvagem de terra, que também me ficara alugado, embora situado na margem do caminho de terra batida que o separava uns escassos metros da granja. Quando o fui ver pela primeira vez, eu não podia sabe que essa breve separação iria selar o seu destino. Chamei-lhe o jardim que o pensamento permite.(...) Nesse triângulo, eu nada cultivava, Eusébia. Era tudo selvagem, renovando-se e combatendo, conforme a força que possuíssem. Expressamente, tudo inútil. Nem para um chá, havia ali planta que prestasse. E, se houvesse, eu não o saberia. Não voltaria ao tempo das bruxas, como não regressaria jamais ao género feminino. Nem seduzir, nem envenenar, nem alucinar. Exactamente à imagem escrita do que procurava."