quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

UM BEIJO DADO MAIS TARDE - Maria Gabriela Llansol

"A história dos pomares e dos jardins é das mais misteriosas. Exprimem com uma tal violência contida os sentimentos mais íntimos dos homens, que eu nunca quis ter um jardim, nem um pomar. Quando já não era preciso queimá-las como bruxas, as mulheres submissas, em geral tendo a Dona da Casa como mestre da submissão, passaram a cultivar, numa subalternidade da casa, um recanto de beleza, com árvores de fruta, com arbustos baixos e flores, com buxos a circunscrever uns e outros, como penhor de sua honestidade. O abandono a que votei o jardim e o pomar desagradou às minhas vizinhas. Nunca tive uma dália, uma rosa ou um crisântemo para lhes oferecer.(...) Mas o que mais espécie lhes fazia era o meu interesse por um triângulo selvagem de terra, que também me ficara alugado, embora situado na margem do caminho de terra batida que o separava uns escassos metros da granja. Quando o fui ver pela primeira vez, eu não podia sabe que essa breve separação iria selar o seu destino. Chamei-lhe o jardim que o pensamento permite.(...) Nesse triângulo, eu nada cultivava, Eusébia. Era tudo selvagem, renovando-se e combatendo, conforme a força que possuíssem. Expressamente, tudo inútil. Nem para um chá, havia ali planta que prestasse. E, se houvesse, eu não o saberia. Não voltaria ao tempo das bruxas, como não regressaria jamais ao género feminino. Nem seduzir, nem envenenar, nem alucinar. Exactamente à imagem escrita do que procurava."

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