segunda-feira, 7 de junho de 2021

“HISTÓRIA DA MENINA PERDIDA: SÉRIE NAPOLITANA, QUARTO ROMANCE”, de ELENA FERRANTE.

“O relato que mais tarde intitulei Uma amizade nasceu naquele estado de suave esgotamento, em Nápoles, numa semana de chuva. É claro que eu sabia estar violando um pacto não escrito entre mim e Lila, e também sabia que ela não suportaria aquilo. Mas acreditava que, se o resultado fosse bom, no final ela me diria: obrigada, eram coisas que eu não tinha coragem de dizer nem a mim, e você falou em meu nome. Há essa presunção em quem se sente predestinado às artes, sobretudo à literatura: trabalha-se como alguém que tivesse recebido uma investidura, mas de fato ninguém jamais nos investiu de coisa alguma, fomos nós que demos a nós mesmos a autorização para sermos autores, mas lamentamos quando os outros dizem: essa ninharia que você fez não me interessa, aliás, me entedia, quem lhe deu o direito. Escrevi em poucos dias uma história que durante anos, desejando e temendo que Lila a estivesse escrevendo, tinha acabado por imaginar em cada detalhe. Fiz porque tudo o que vinha dela, ou que eu lhe atribuía, me dava a impressão, desde menina, de ser mais significativo e mais promissor do que aquilo que vinha de mim.

Quando terminei a primeira redação estava num quarto de hotel com uma varandinha de onde se tinha uma bela vista do Vesúvio e do hemiciclo acinzentado da cidade.”

(“HISTÓRIA DA MENINA PERDIDA: SÉRIE NAPOLITANA, QUARTO ROMANCE”, de ELENA FERRANTE. SP: Editora Globo, 2017, p. 464.).

 

 

“A VIDA MENTIROSA DOS ADULTOS”, DE ELENA FERRANTE.

“O tempo da minha adolescência é lento, feito de grandes blocos cinzentos e pequenas saliências verdes ou vermelhas ou roxas. Os blocos não têm horas, dias, meses, anos, e as estações são incertas, faz calor e frio, chove e faz sol. As saliências também não têm um tempo certo, a cor é mais importante do que qualquer datação. De resto, a duração da própria coloração que certas emoções assumem é irrelevante, quem está escrevendo sabe. Assim que você procura as palavras, a lentidão se transforma em um vórtice e as cores se confundem como as de diferentes frutas em um liquidificador. Não apenas “o tempo passou” se torna uma fórmula vazia, mas também “uma tarde”, “uma manhã”, “uma noite” acabam sendo indicações convenientes.” (“A vida mentirosa dos adultos”, de Elena Ferrante. RJ: Intrínseca, 2020, p. 321).