“HISTÓRIA DA MENINA PERDIDA: SÉRIE NAPOLITANA, QUARTO ROMANCE”, de ELENA FERRANTE.
“O relato que mais tarde intitulei Uma amizade nasceu naquele estado de suave esgotamento, em Nápoles, numa semana de chuva. É claro que eu sabia estar violando um pacto não escrito entre mim e Lila, e também sabia que ela não suportaria aquilo. Mas acreditava que, se o resultado fosse bom, no final ela me diria: obrigada, eram coisas que eu não tinha coragem de dizer nem a mim, e você falou em meu nome. Há essa presunção em quem se sente predestinado às artes, sobretudo à literatura: trabalha-se como alguém que tivesse recebido uma investidura, mas de fato ninguém jamais nos investiu de coisa alguma, fomos nós que demos a nós mesmos a autorização para sermos autores, mas lamentamos quando os outros dizem: essa ninharia que você fez não me interessa, aliás, me entedia, quem lhe deu o direito. Escrevi em poucos dias uma história que durante anos, desejando e temendo que Lila a estivesse escrevendo, tinha acabado por imaginar em cada detalhe. Fiz porque tudo o que vinha dela, ou que eu lhe atribuía, me dava a impressão, desde menina, de ser mais significativo e mais promissor do que aquilo que vinha de mim.
Quando terminei a primeira redação estava num quarto de hotel com uma varandinha de onde se tinha uma bela vista do Vesúvio e do hemiciclo acinzentado da cidade.”
(“HISTÓRIA DA MENINA PERDIDA: SÉRIE NAPOLITANA, QUARTO ROMANCE”, de ELENA FERRANTE. SP: Editora Globo, 2017, p. 464.).
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