“O GATO DIZ ADEUS”, de Michel Laub.
“Nós fomos a um clube desses num
sábado. Era numa rua calma, com as luzes semi-apagadas. Um lugar onde os
carpetes foram recém-lavados. Onde há pilares de espelhos. Onde os garçons
servem uísque e fingem não ver o que acontece. Todos aqueles casais na pista de
dança. Aqueles homens carecas, peludos, usando cinto e relógio. As mulheres com
cara de que foram arrastadas até ali. Mulheres velhas, a vida inteira se
submetendo a homens que as tratam como Sérgio me tratava, me incentivando a
dançar com um sujeito de barba, depois sentar ao lado dele, Sérgio à distância,
cuidando cada gesto meu, o homem de barba me puxando para junto dele. Eu sentia
o cheiro dele, um cheiro de loção, as patas dele em volta da minha cintura, as
garras dele baixando pela minha perna. Eu queria fugir o mais rápido possível,
correr para casa, entrar debaixo do chuveiro, me ajoelhar ao lado da privada e
jogar para fora aquele gosto de coisa morta, meu casamento que estava morto,
todas as noites ter de repetir para Sérgio que o homem de barba me pegou de
jeito, a mesma história até que Sérgio não aguentasse e despejasse o seu ódio
dentro de mim, com força, assim, um jorro inteiro, inundando o mundo todo.”
(“O gato diz adeus”, de Michel
Laub. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, ps. 51/52.)