quinta-feira, 16 de abril de 2020


“O GATO DIZ ADEUS”, de Michel Laub.


“Nós fomos a um clube desses num sábado. Era numa rua calma, com as luzes semi-apagadas. Um lugar onde os carpetes foram recém-lavados. Onde há pilares de espelhos. Onde os garçons servem uísque e fingem não ver o que acontece. Todos aqueles casais na pista de dança. Aqueles homens carecas, peludos, usando cinto e relógio. As mulheres com cara de que foram arrastadas até ali. Mulheres velhas, a vida inteira se submetendo a homens que as tratam como Sérgio me tratava, me incentivando a dançar com um sujeito de barba, depois sentar ao lado dele, Sérgio à distância, cuidando cada gesto meu, o homem de barba me puxando para junto dele. Eu sentia o cheiro dele, um cheiro de loção, as patas dele em volta da minha cintura, as garras dele baixando pela minha perna. Eu queria fugir o mais rápido possível, correr para casa, entrar debaixo do chuveiro, me ajoelhar ao lado da privada e jogar para fora aquele gosto de coisa morta, meu casamento que estava morto, todas as noites ter de repetir para Sérgio que o homem de barba me pegou de jeito, a mesma história até que Sérgio não aguentasse e despejasse o seu ódio dentro de mim, com força, assim, um jorro inteiro, inundando o mundo todo.”


(“O gato diz adeus”, de Michel Laub. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, ps. 51/52.)

domingo, 12 de abril de 2020


 

“MEMORIA POR CORRESPONDENCIA”, de Emma Reyes.


“Naturalmente, esa insistencia sobre el mismo tema había terminado por convencernos de que éramos los seres más afortunados y felices. Por esa razón nunca se nos ocurrió ni protestar, ni reclamar justicia. Nuestras vidas no tenían porvenir y nuestra sola ambición era la de pasar del convento derecho al Cielo sin tocar el mundo. En el Cielo nos esperaban, con los brazos abiertos y cánticos celestes, los santos, ángeles, arcángeles y querubines, que entre nubes nos conducirían para la eternidad al reino de Dios y de la Virgen María.” 


(“MEMORIA POR CORRESPONDENCIA”, de Emma Reyes. Bogotá: Laguna Libros, Febrero de 2014, p. 127.)

“O DESVIO”, de  Gerbrand Bakker.


“Subitamente, ficou furiosa, não só com o biógrafo, mas com a própria Emily Dickinson. Uma mulher autoritária que se refugiava na própria casa e sem seu próprio jardim. Uma mulher que por tudo o que fez ou deixou de fazer, dizia, sem palavras, que as pessoas não deviam prestar atenção nela, mas ao mesmo tempo morria de medo que o carinho que demonstrava pelos outros, em geral através das cartas, não fosse correspondido, buscando aceitação como uma criança chorona. Uma mulherzinha que se diminuía, deve ter sido medrosa, assinando cartas com “Seu gnomo”; que durante a cerimônia do funeral de seu pai em um grande salão, ficou em seu quarto cheia de medo, mas mantendo a porta claramente entreaberta, de maneira a atrair mais atenção. “Mesmo sem tocá-la, ela já sugava toda a minha energia. Fico feliz por não morar perto dela”, escreveu um dos homens com quem se correspondia. Uma mulher que passou a usar roupas brancas, como uma virgem. Só agora percebia que fora essa raiva que a impelira a escrever sua dissertação, para apresentar uma revisão crítica dos poemas que na sua opinião eram em grande parte superestimados.”

(“O  desvio”, de Gerbrand Bakker. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2019, ps. 158/159.)

“Gracias por el fuego”, de Mario Benedetti.


“Nesse país, em que os escassos revolucionários por vocação suspenderiam sua revolução por causa do mau tempo, ou a adiantariam até abril para não perder a temporada de praia, neste amorfo país de andrajosos que votam em milionários, de peões rurais que são contra a reforma agrária, de uma classe média que cada vez mais encontra dificuldades para imitar os tiques e os coquetéis da alta burguesia e no entanto pensa na palavra solidariedade como se se tratasse do sétimo círculo infernal, nesse país de tipos como eu próprio, desacomodado em meu sobrenome porque renego toda a imundície que hoje está implícita no nome Budiño; desacomodado em minha classe porque meu bem-estar econômico me dói como uma culpa, como uma má consciência, enquanto meus iguais desfrutam do conforto como poderia fazê-lo uma fêmea folgazã; desacomodado em minhas crenças, sobretudo políticas, porque extraio meus recursos de um sistema de vida totalmente oposto ao que prefiro [...]” 

(“Gracias por el fuego”, de Mario Benedetti. Porto Alegre: L&m POCKET, 2019, ps. 234/235)