“O DESVIO”, de Gerbrand Bakker.
“Subitamente, ficou furiosa, não só com o biógrafo, mas com a
própria Emily Dickinson. Uma mulher autoritária que se refugiava na própria
casa e sem seu próprio jardim. Uma mulher que por tudo o que fez ou deixou de
fazer, dizia, sem palavras, que as pessoas não deviam prestar atenção nela, mas
ao mesmo tempo morria de medo que o carinho que demonstrava pelos outros, em
geral através das cartas, não fosse correspondido, buscando aceitação como uma
criança chorona. Uma mulherzinha que se diminuía, deve ter sido medrosa,
assinando cartas com “Seu gnomo”; que durante a cerimônia do funeral de
seu pai em um grande salão, ficou em seu quarto cheia de medo, mas mantendo a
porta claramente entreaberta, de maneira a atrair mais atenção. “Mesmo sem
tocá-la, ela já sugava toda a minha energia. Fico feliz por não morar perto
dela”, escreveu um dos homens com quem se correspondia. Uma mulher que passou a
usar roupas brancas, como uma virgem. Só agora percebia que fora essa raiva que
a impelira a escrever sua dissertação, para apresentar uma revisão crítica dos
poemas que na sua opinião eram em grande parte superestimados.”
(“O desvio”, de
Gerbrand Bakker. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2019, ps. 158/159.)
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