domingo, 12 de abril de 2020


“Gracias por el fuego”, de Mario Benedetti.


“Nesse país, em que os escassos revolucionários por vocação suspenderiam sua revolução por causa do mau tempo, ou a adiantariam até abril para não perder a temporada de praia, neste amorfo país de andrajosos que votam em milionários, de peões rurais que são contra a reforma agrária, de uma classe média que cada vez mais encontra dificuldades para imitar os tiques e os coquetéis da alta burguesia e no entanto pensa na palavra solidariedade como se se tratasse do sétimo círculo infernal, nesse país de tipos como eu próprio, desacomodado em meu sobrenome porque renego toda a imundície que hoje está implícita no nome Budiño; desacomodado em minha classe porque meu bem-estar econômico me dói como uma culpa, como uma má consciência, enquanto meus iguais desfrutam do conforto como poderia fazê-lo uma fêmea folgazã; desacomodado em minhas crenças, sobretudo políticas, porque extraio meus recursos de um sistema de vida totalmente oposto ao que prefiro [...]” 

(“Gracias por el fuego”, de Mario Benedetti. Porto Alegre: L&m POCKET, 2019, ps. 234/235)

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