terça-feira, 24 de dezembro de 2019

"A HONRA PERDIDA DE KATHARINA BLUM: de como surge a violência e para onde ela pode levar", de Heinrich Böll.

"Às vezes", disse ela outro dia a Blorna, "tenho de fazer um esforço homérico para não jogar uma tigela de salada de batata no smoking de um bon-vivant qualquer ou um prato de salmão no decote de uma cocota petulante para que finalmente fiquem estremecidos. Uma hora eles têm de se colocar no lugar do outro, em nosso lugar: o jeito que ficam com suas bocas arreganhadas, ou melhor, com seus focinhos devoradores, e, claro, como começam caindo em cima do caviar - e tem aqueles que, eu sei, são milionários ou mulheres de milionários e enfiam cigarros, caixas de fósforos e petits fours em suas bolsas. Logo trazem uns sacos plásticos onde jogam pó de café - e tudo isso pago por nossos impostos, de uma forma ou de outra. Tem também aqueles que não tomam café da manhã ou almoçam e avançam nos bufês como urubus - mas é claro que não quero ofender os urubus."

[...]

"Então, as senhoras foram apartadas por Frederick Le Boche, que tivera presença de espírito e não pôde deixar de apanhar o sangue de Sträubleder com um mata-borrão e transformá-lo em uma "one minute piece of art" - como ele chamou -, deu o título de "Fim de uma amizade de anos", assinou e não ofereceu de presente a Sträubleder, mas a Blorna, com as seguintes palavras: "Use para melhorar um pouco o seu caixa". É possível reconhecer nesse último fato mencionado, junto aos atos violentos descritos antes, que a arte realmente ainda tem uma função social."

("A honra perdida de Katharina Blum: de como surge a violência e para onde ela pode levar", de Heinrich Böll. São Paulo: Carambaia, 2019, p. 107/109)

Nenhum comentário:

Postar um comentário