quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio", de Herta Müller

"Aprendi que a paisagem da infância deixa marcas para o olhar da paisagem de todos os anos seguintes. A paisagem da infância socializa sem aviso prévio. Ela se esgueira para dentro. Paisagens da infância são as primeiras grandes imagens que nos confrontam com nosso corpo. Somos minúsculos e percebemos que nossa carne é uma matéria perecível. Paisagens nos mostram, ainda crianças, essa perecibilidade. Na infância, ainda não sabemos essa palavra, infelizmente. Mesmo assim, conseguimos percebê-la, sem a conhecer. Estamos na desigualdade. A imagem da paisagem da minha infância é o primeiro grande fracasso que conheço. A constituição desigual foi mostrada. Sozinha na paisagem, senti medo muitas vezes. A paisagem é o primeiro grande impasse, sem motivo, do qual consigo me lembrar. Eu achava que era preciso virar planta para saber como viver. O rio verde do vale atrás dos milharais foi o primeiro espelho exterior do meu desamparo." ("Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio", de Herta Müller, Tradução Claudia Abeling, Biblioteca Azul, 2012, ps. 126/127)

"O individual não existia no socialismo porque não podia existir. Individualismo era um palavrão. A não adaptação ao coletivo era denominada individualismo e servia até como motivo de demissão. Em todos os meus documentos de demissão como professora aparece a palavra individualismo. Eu queria viver no singular, mas quem mandava no socialismo era o plural. Talvez por isso pudéssemos achar que, no socialismo, a massa mandasse. Mas a massa não existia. Assim como o individual não existia porque não podia existir, a massa no sentido de Canetti também não existia porque não podia existir. E a massa compulsória não é massa, mas uma autorrepresentação do poder. A massa de Canetti, autoconstituída, teria deposto o poder imediatamente. E foi o que aconteceu finalmente em 1989, porque os soviéticos não mandaram mais tanques quando a massa socialista, compulsória, se transformou numa massa de Canetti." (op. cit., p. 181)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bartleby, o escrevente - Uma história de Wall Street, de Herman Melville

"Bartleby", disse eu, "Ginger Nut esté fora; não quer dar um pulo até os Correios (não leva mais do que três minutos) e verificar se há alguma coisa para mim?"
"Preferia não."
"Você não quer?"
"Prefiro não."
Cambaleei até minha mesa e sentei-me ali em profunda reflexão. Minha cega obstinação estava de volta. Havia alguma outra coisa que pudesse fazer para ser vergonhosamente contestado por esse descarnado ser sem vintém, meu funcionário? Que outra coisa haveria, perfeitamente razoável, que ele com certeza se negasse a fazer?
"Bartleby!"
Nenhuma resposta.
"Bartleby", num tom mais alto.
Nenhuma resposta.
"Bartleby", gritei.
Como um verdadeiro fantasma obediente às leis da invocação mágica, ao terceiro chamado ele apareceu na entrada do eremitério.
"Vá à sala ao lado e diga a Nippers para vir até aqui."
"Prefiro não", disse, devagar e com respeito, saindo calmamente.
"Muito bem, Bartleby", disse eu, num tom abafado de voz, serenamente severo e seguro, insinuando o inabalável propósito de alguma terrível e iminente retaliação. Tinha em mente, naquela hora, mais ou menos algo assim. Mas, no geral, como se aproximava a hora do almoço, achei melhor, muito abalado pela perplexidade e pela confusão mental, pôr o chapéu e, dando o dia por encerrado, ir para casa.

("Bartleby, o escrevente - Uma história de Wall Street", de Herman Melville, Tradução Tomaz Tadeu, Ilustrações Javier Zabala, Autêntica, 2015, p. 59/61)