quinta-feira, 16 de abril de 2020


“O GATO DIZ ADEUS”, de Michel Laub.


“Nós fomos a um clube desses num sábado. Era numa rua calma, com as luzes semi-apagadas. Um lugar onde os carpetes foram recém-lavados. Onde há pilares de espelhos. Onde os garçons servem uísque e fingem não ver o que acontece. Todos aqueles casais na pista de dança. Aqueles homens carecas, peludos, usando cinto e relógio. As mulheres com cara de que foram arrastadas até ali. Mulheres velhas, a vida inteira se submetendo a homens que as tratam como Sérgio me tratava, me incentivando a dançar com um sujeito de barba, depois sentar ao lado dele, Sérgio à distância, cuidando cada gesto meu, o homem de barba me puxando para junto dele. Eu sentia o cheiro dele, um cheiro de loção, as patas dele em volta da minha cintura, as garras dele baixando pela minha perna. Eu queria fugir o mais rápido possível, correr para casa, entrar debaixo do chuveiro, me ajoelhar ao lado da privada e jogar para fora aquele gosto de coisa morta, meu casamento que estava morto, todas as noites ter de repetir para Sérgio que o homem de barba me pegou de jeito, a mesma história até que Sérgio não aguentasse e despejasse o seu ódio dentro de mim, com força, assim, um jorro inteiro, inundando o mundo todo.”


(“O gato diz adeus”, de Michel Laub. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, ps. 51/52.)

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