O CÃO DO SUL - CHARLES PORTIS
"As pinças cirúrgicas?", perguntei, indiferente.
"Não, as pinças. Ele inventou a pinça."
"Não entendi. De que tipo de pinça o senhor está falando?"
"Pinças! Pinças! Aquele instrumento que serve para arrancar ou segurar coisas! Você não entende inglês?"
"O senhor está dizendo que esse homem inventou a primeira pinça?"
"Ele patenteou a coisa. Ele inventou a pinça."
"Não, ele não inventou."
"Então quem foi?"
"Eu não sei."
"Você não sabe. E também não conhece Simitty Wooten, mas quer me dizer que ele não inventou a pinça."
"Ele pode ter inventado algum tipo especial de pinça, mas não inventou a pinça. O princípio da pinça provavelmente já era conhecido pelos sumérios. O senhor não pode sair por aí dizendo que esse sujeito da Lousiana inventou a pinça."
"Ele foi o melhor diagnosticador da nossa época. Presumo que você vai negar isso também."
"Isso é outra coisa."
"Não, vá em frente. Ataque-o à vontade. Ele está morto agora e não tem como se defender. Pode chamá-lo de mentiroso e vagabundo. É um ótimo esporte pras pessoas que ficam sentadas à margem da vida. Elas fazem o mesmo com o Dix. Gente que não é digna sequer de pronunciar o nome dele."
Eu não queria provocar outro frenesi enquanto ele estava dirigindo, por isso deixei o assunto pra lá. Havia bem pouco tráfego, como eu disse, naquele cerrado verde desolado, e nem sinal de rios e riachos, mas ele conseguiu encontrar uma ponte estreita e nela cruzar com um caminhão de gado. Assim que avistou o caminhão, a uns bons oitocentos metros, o doutor começou a fazer delicados ajustes na velocidade de modo a assegurar um encontro no centro exato da ponte. Arrancamos um espelho do caminhão e fugimos da cena e quando estávamos longe eu assumi de novo o volante."
("O Cão do Sul", de Charles Portis, Alfaguara, 1ª ed., 2015, ps. 87/88.)
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