quinta-feira, 2 de julho de 2015


A TRISTEZA EXTRAORDINÁRIA DO LEOPARDO-DAS-NEVES - JOCA REINERS TERRON


"Sempre me perguntei de onde veio a ideia de que uma vida inteira passa diante dos olhos dos moribundos. Afinal, quem é que voltou do Além para contar o que viu no instante da morte? A morte madura é uma sucessão de esquecimentos que se acentua conforme mais velhos ficamos, primeiro não sabemos onde guardamos a chave do automóvel, depois não temos a mínima lembrança de onde está enfiado o passaporte, e daí datas de pagamentos importantes e eventos aos quais não podemos faltar são esquecidas, a desaparição de objetos, a elisão de compromissos, de recordações que somem em alguma gaveta secreta ou então no vácuo da memória. Resta somente essa esperança que alimentamos dia a dia, a de que no instante final tudo será lembrado, para que enfim a gente possa partir levando a existência em sua integralidade, e não os retalhos e fiapos que nos acompanham nos últimos anos."
('Companhia das Letras', 2013, p. 126)

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